Existe uma tendência humana de buscar segurança no que é rígido. Se criam estruturas mentais pesadas, conceitos imutáveis e certezas, muitas certezas, como tentativa de proteção, justamente contra as incertezas da vida. No entanto, ao olhar a natureza, percebemos que a sobrevivência e a clareza não pertencem ao que é duro, mas ao que é capaz de fazer parte do todo.
Observe essa água-viva, a Pelagia noctiluca, conhecida como medusa-lilás.
Seus tentáculos podem liberar toxinas que causam desde irritações leves até queimaduras severas e reações alérgicas graves ao contato com a pele. Mas a figura dela não nos mostra essa defesa, ela é linda e perfeita. No entanto, ao menor sinal de perigo, ela reage, mas apenas ao sinal de perigo.
Diferente da mente humana, que muitas vezes permanece em estado de alerta constante, a medusa não vive em função de sua toxicidade. Suas armas não definem sua forma, nem obscurecem sua transparência. Na psicologia, esse fenômeno remete à gestão da crença: a capacidade de possuir defesas sem se tornar a própria defesa.
Enquanto o ser humano tende a construir personalidades ríspidas e muros emocionais permanentes para evitar feridas, a Pelagia noctiluca mantém uma proteção mais sofisticada. Ela preserva sua fluidez e sua beleza enquanto navega, acionando sua defesa apenas quando a integridade do ser, é de fato, ameaçada.
Observe a imagem e note como a luz atravessa o seu corpo. Não há nada a esconder. A clareza mental, sob essa ótica, não seria a ausência de mecanismos de defesa, mas a transparência do canal por onde a vida flui.
Quando a mente se torna pesada com certezas absolutas, ela perde a capacidade de processar o novo. Se torna opaca. A água-viva, ao contrário, se mantém permeável. Ela nos mostra que é possível ser sensível ao ambiente sem ser destruído por ele. A toxicidade de seus tentáculos não a impede de ser um ser de luz e leveza, ela apenas garante que essa leveza tenha um espaço respeitado no oceano.
A sobrevivência psíquica exige esse mesmo equilíbrio: a habilidade de se abrir para a imensidão das experiências, o fazer parte do todo, sem permitir que a própria individualidade seja violada.
Estar no mundo com a consciência de uma pelagia noctiluca é entender que a dureza é desnecessária na maior parte do tempo. A força está em manter a forma em meio ao movimento, em brilhar mesmo nos momentos de escuridão e de incertezas e em saber que possuir defesas não significa viver em guerra.
A harmonia do SER humano acontece quando a pessoa é capaz de flutuar com a corrente, mas mantém, no silêncio de sua estrutura, a autoridade sobre o seu próprio espaço.
É nesse cenário de busca pelo equilíbrio que o processo terapêutico se torna fundamental. Muitas vezes, se chega à terapia com a estrutura psíquica endurecida por anos de autoproteção, a pessoa se tornou a própria armadura, perdendo a transparência e a capacidade de flutuar.
O trabalho terapêutico não visa desarmar o indivíduo ou deixá-lo indefeso diante do mundo, mas sim ensinar a refinar seus mecanismos de resposta.
A terapia atua como o oceano que sustenta essa existência: um espaço seguro onde se pode investigar quais venenos foram acumulados e quais defesas se tornaram anacrônicas*. Ao longo das sessões, as certezas opacas e rígidas começam a dar lugar à dúvidas pertinentes e estimulantes. O indivíduo aprende que não precisa ser uma rocha para ser forte, ele descobre que pode, tal como a medusa-lilás, viver com sua defesa, mas sem ser consumido por ela.
O objetivo final do processo terapêutico é, portanto, retomar a transparência. É permitir que a pessoa deixe de ser um forte em estado de guerra, para se tornar um SER em estado de presença. Quando a terapia cumpre seu papel, a pessoa não apenas sobrevive às correntes da vida, mas passa a navegá-las com um novo olhar: o de quem conhece suas sombras e sua toxicidade, mas escolhe, deliberadamente, viver pela sua luz e pela sua fluidez.
*Anacrônico: A palavra vem do grego: ana (contra) + khronos (tempo). Esse termo é muito usado para descrever reações que faziam sentido no passado, mas que não servem mais para o momento presente.
Este artigo foi escrito pela equipe de psicologia da Mood Você. Se você busca por atendimento psicológico especializado, entre em contato pelo WhatsApp para verificar horários de consulta. Atendemos adolescentes e adultos online e presencial (dependendo da disponibilidade de agenda e local)